Sobre a Autora

Advogada formada pela Faculdade de Direito de Franca. Especialista "lato sensu" em Direito Processual Civil pela Faculdade de Direito de Itu. Mestre em Direito Processual Civil pela PUC SP.

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Um retrocesso intelectual

BrasilPeço desculpas aos leitores deste blog, que trata de matérias jurídicas, por me permitir desviar do objetivo principal traçado por mim. Todo domingo eu reservo alguns minutos para folhear a revista Veja e me inteirar dos principais assuntos da semana. Pois bem, hoje não foi diferente e um artigo me chamou especial atenção: “Os adversários do bom português”.

Terça-feira, no final de uma aula com a turma do nono semestre do curso de direito, duas alunas saíram comentando a polêmica gerada sobre um certo livro distribuído pelo MEC aos estudantes do ensino fundamental. Ouvi a conversa e até fiz um comentário rápido, mas sem me inteirar sobre o conteúdo da polêmica. Coincidentemente, o mesmo tema foi tratado em um programa de TV, mas assisti apenas aos minutos finais e perdi o debate.

Pois bem, hoje tive tempo e oportunidade de ler sobre o assunto. Não preciso nem dizer que fiquei surpresa e, porque não dizer perplexa, com o que li. Por favor, “preconceito linguístico”, o que é isso?

Os autores do livro “Por uma vida melhor” defendem a ideia de que não há problema em construir frases ignorando a concordância. A revista Veja até traz alguns exemplos dados pelo livro, tais como: “Nós pega o peixe” e “Os meninos pega o peixe”. Prega a autora que quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Dessa forma você pode falar assim, mas o livro faz uma ressalva, que transcrevo aqui:

“Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.”

O Brasil é um país de grande extensão territorial e que possui uma enorme variedade de culturas e costumes, isso não há como rebater. Cada região tem seu sotaque próprio, suas gírias e expressões próprias, mas todos falamos e escrevemos português. A língua escrita tem a sua forma culta que respeita regras gramaticais e de concordância, e que deve ser ensinada e disponibilizada a todos.

Como citado na matéria da Revista Veja, “a escola que não enfatiza a norma culta da língua está excluindo seus alunos da cultura dominante, que todos devem almejar e à qual devem ter acesso”.

Incentivar o uso correto da gramática e exigir que suas regras sejam seguidas, tanto na escrita quanto na fala, pode ser visto e denominado como preconceito? Exigir padrões de ensino, independente de classe social, pode ser taxado como preconceito? Permitir e achar correto ignorar as regras de concordância, pode ser visto como normal?

Não consigo visualizar uma resposta afirmativa para nenhuma dessas questões!

Vivemos em uma sociedade competitiva, que evolui constantemente e que exige cada vez mais de nós. Como é possível aceitar tal disparate? E pior, tal despautério foi chancelado pelas autoridades educacionais, ou seja, pelo MEC, que distribuiu os livros e decidiu não retirá-los das escolas.

Nós, que trabalhamos com a escrita, sabemos a importância de um bom português, escrito e falado, e da valoração de uma fala correta e inteligível à todos. A educação está em baixa, sem dúvida, mas desensinar não é o caminho para mudar essa situação.

Ao invés de pregar ideias de alguns poucos, não seria interessante incentivar a boa educação? Quem lida com alunos do ensino superior, assim como eu, percebe que a maior dificuldade em ensinar está na carência dos alunos em interpretação de texto.

Na minha humilde opinião, creio que o Estado deve dispensar um olhar mais atento a disciplinas fundamentais, disciplinas estas capazes de preparar o aluno para cursar e aproveitar ao máximo um curso superior. O Estado deve valorar o ensino de disciplinas que preparem o aluno ao mercado profissional e à concorrência imposta por esse mercado. O Brasil está carente de pensadores e criadores, a nossa sociedade está carente de críticos e de cidadãos questionadores.

Não podemos permitir que haja um retrocesso intelectual!

2 comentários:

Adelson (Gerenciando Blog) disse...

Eu compartilho da revolta da autora deste texto com a matéria publicada na revista Veja. É um absurdo que em um país tão carente de educação quanto o Brasil vejamos atitudes que prestam tamanho desserviço.

Se continuarmos nessa linha, logo não importará mais o resultado das operações matemáticas, nem a verdade sobre os fatos históricos.

É realmente lamentável ver nossa educação indo para o ralo assim.

Leo_PR disse...

O famoso pronome oblíquo átono.

Então, eu estava vendo a notícia, e o livro didático "por uma vida melhor" não diz em momento nenhum que falar "os livro" é o correto. Quem fala isso é a revista Veja (Renata Betti e Roberta de Abreu Lima), devido a falta de interpretação do texto.

Em outra coisa que a revista se engana. Falar e escrever são habilidades diferentes, e modernamente não existe "certo e errado" no idioma, e sim se é adequado para a comunicação.

Se o objetivo da comunicação é cumprido, então a variação linguística esta correta. Afinal, a função de um idioma não é estar correto, mas manter uma comunicação entre as pessoas.

Nem precisando explicar todo o livro didático, usando apenas a própria noticia, o segundo texto grifado pela revista Veja reforça a ideia de que o aluno precisa dominar *as duas variantes* linguísticas. Portanto não diz que "Nós pega o peixe" é o correto. diz apenas que é uma variante popular que pode ser usado para comunicação.
E hora que esta escrito "é importante que domine as duas variedades", significa que o aluno tem que conhecer os "dois idiomas". Ou seja exige mais conhecimento.

No modelo moderno de ensino do idioma português(inclusive a Lingua Portuguesa), não é mais adequado ensinar gramática para interpretar texto. Nunca funcionou bem.
O foco do ensino moderno é interpretação de texto, e ensinar o aluno a entender um texto. Uma vez ensinado, parte-se para um pouco de gramática.
Afinal a parte mais importante da gramatica é para evitar que a interpretação de texto fique difusa, confusa, dúbia,... . De resto, a maioria das regras de gramatica tem fins academicos (para graduação de letras). E é muito cruel fazer com que os alunos, decorem regras e mais regras.

A Gramatica e a interpretação de textos pode ter um desempenho bom juntas. Mas não são necessárias uma para a outra.

É perfeitamente possível escrever um texto gramaticalmente errado, e ainda sim ser entendido por milhões de pessoas, sem gerar dúvidas.

Como também é possível como escrever textos sem nenhum erro de ortografia e gramatica, mas não tenham sentido nenhum. Ligando nada a lugar algum. (procure "gerador de lero-lero")

Com isso o livro cobre bem o papel de ajudar os alunos a interpretar melhor os textos, sem criminaliza-los ou confundi-los com as desnecessidades gramaticais.

O livro mostra-se um excelente auxiliar para a o aluno, principalmente para aprender a escrever melhor e para obter mais vocabulário. Mas ensinar o gosto da leitura é outra etapa para ser cumprida. E se o alunos continuarem com trauma de leitura, porque tem haver com portugues e, por sua vez, com regras de gramática; ai nós tá frito...

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